coca-cola

E queria lhe dizer o quanto eu odeio o fato de ficar com uma coca-cola enquanto você toma o café que trouxe pra mim. Dizer também que quando eu digo "tudo bem, almoça fora que eu arranjo o que comer" na verdade eu espero que você diga que trará qualquer coisa fresca pra eu comer, porque já tá tarde pra começar a acender o fogão, em vão. Até me atrever a dizer que eu não sou tão fútil e não quero o seu maldito cartão de crédito com limite ridículo que não me deixa comprar sequer um livro, quero também a sua atenção.

Sabe, eu não gosto muito de Coca-cola, não mesmo. Não sei se em todos esses anos de convivência você nunca reparou. Não sei se em mais de 15 anos você ainda não se adaptou à minha incômoda presença desde os tempos em que eu era só um espermatozóide vencedor com cara de joelho. Não sei por que diabos você faz um escândalo quando eu digo que quero ir ao banheiro no meio de alguma das nossas viagens idiotas, na tentativa mais falsa possível de reunir o que sobrou de amor entre nós três. Não sei por que você não consegue ouvir uma frase completa que sai das minhas cordas vocais sem bocejar, se irritar ou simplesmente ignorar o que eu digo. Não sei por que você é tão conformista com a sua vidinha medíocre e, então, não faz nada pra melhorá-la. Não sei por que você aparentemente não suporta a minha mãe, não me suporta, e continua lá, seja por pena ou por compaixão. Não sei onde você erramos. Não sei onde o conceito de matrimônio e descendentes se perdeu, há tempos.

E, realmente, não sei como eu consigo te amar tanto.

Amar cada sorriso forçado, nem que ele venha depois de muita insistência. Cada mínima demonstração de preocupação, nem que só aconteça depois de estar bêbada ou desmaiar frequentemente às 10h da manhã. Cada minuto de sono perdido me levando ao colégio que eu detesto porque não consigo acordar tão cedo. Cada vez que dá um conselho que –muito- raramente é levado em consideração sobre o meu futuro (ainda bem). Cada chantagem emocional envolvendo cigarros, álcool e mães. Cada olhadela pelo retrovisor me procurando quando alguma música tosca toca no rádio. Cada tentativa de ser mais pai.

E queria lhe dizer que eu quero que você seja mais, pai.
E queria lhe dizer tudo o que escrevo agora sem que você vire o rosto, me chame de dramática e durma.

Feliz aniversário... ou quase isso.


2 comentários:

Jessy disse...

PQP´q lindooooo!
me emocinei cara e é serio!
me emocionei e identifiquei!
vc escreve muito bem anna!

Ana disse...

eu também queria dizer isso à alguém...me identifiquei.. ou não, levando em conta que estou aceitando a idédia de 'não ter pai'